Buzuca

Entrevista com Buzuca

Conheça o mito, o jogador e a lenda

Renan Muniz

Buzuca Colorido2

Muitos jogadores são craques, alguns até se tornam ídolos, mas pouquíssimos viram lenda. Buzuca é, sem dúvida, o maior mito da história da Caldense. Foi comparado aos grandes zagueiros do futebol mundial. Marcou Pelé, Garrincha, Tostão, Roberto Dinamite e tantos outros jogadores. Sua raça, liderança, virilidade e até mesmo o seu visual, assombravam os atacantes. Sua fama chegou ao ápice quando Reinaldo, do Atlético-MG, atuando pela seleção brasileira, concedeu uma entrevista dizendo: “O Buzuca é um zagueiro pré-histórico, com quase dois metros de altura, barba enorme, cabelos ruivos e parecido com um guarda-roupa gigante. Ele não acaba com um adversário, ele acaba com cinco de uma vez só. Por isso, quem já enfrentou o Buzuca, não teme mais nada na vida”.

É uma satisfação imensa estar aqui em Varginha para registrar um pouco da sua história. Obrigado por nos receber aqui na sua casa!
É um prazer muito grande receber vocês. É um orgulho enorme ouvir suas palavras e saber que o povo poços-caldense se lembra de mim até hoje. Eu retribuo com a fala de que amo Poços de Caldas, amo a torcida da Caldense e me sinto poços-caldense de coração.

Toda criança quando começa a praticar futebol quer jogar no ataque e marcar gols. Como o senhor descobriu seu talento para zagueiro?
Eu nasci em Nova Lima-MG e comecei a jogar nas equipes inferiores do Villa Nova. Um tempo depois, com meus 15 ou 16 anos, passei a treinar com os profissionais. E lá trabalhava o Anísio Clemente, um dos maiores zagueiros da história do futebol mineiro. Ele veio falar comigo e disse que eu não levava jeito pra centroavante e que iria me colocar como zagueiro central, devido à minha altura e porte físico. As coisas funcionaram bem e acabei me eternizando nessa posição. Por isso, sou muito grato ao Anísio.

Pra quem não sabe, o seu nome real é Antônio Carlos de Melo. Eu imagino que seu apelido tenha surgido nessa época de juventude. O senhor se lembra o por quê de “Buzuca”?
Eu sempre fui viril e chegava firme na marcação. Por conta disso, um dos grandes amigos da minha vida, Gérson Vieira, queria me chamar de Bazuca, para fazer uma referência a aquela arma potente. Mas ele acabou pronunciando errado, falou Buzuca e o apelido pegou.

Como foi sua trajetória no futebol até chegar à Caldense?
Comecei no Villa Nova, depois fui para o América-MG e em seguida para o Cruzeiro de Brasília. E lá o Joaquim Aparecido (diretor do Flamengo de Varginha) me propôs um contrato, pois estavam formando a primeira equipe profissional da cidade. Aceitei o convite e formamos um time muito bom em 1968/69, com jogadores famosos como o Nuno (que também passou pela Caldense) e o Sudaco. Depois de um ano e meio em Varginha, o nosso treinador, José Alves, foi para o Bangú e me levou juntamente com o Zé Mauro. Mas o clube entrou em uma fase ruim com a saída do presidente Castor de Andrade e a equipe se desfez totalmente. Nessa época o pessoal do Atlético de Três Corações foi atrás de mim e do próprio Zé Mauro. Ele aceitou de imediato, mas eu recebi um convite da Caldense que me chamou muito a atenção. A Veterana estava reunindo grandes jogadores e teria uma chance muito boa de subir para a Divisão Especial (módulo I). Por isso, optei pela Caldense. Foi uma das melhores escolhas que já fiz na vida.

Quando o senhor chegou a Poços no final de 1971, a Caldense ainda era uma equipe amadora/semiprofissional. Em 1972 o time se profissionalizou de fato. Como foi essa transição de amador para profissional?
Isso aconteceu porque a Caldense subiu para a Divisão Especial. Na época o time contava com uma diretoria muito potente, financeiramente muito capaz. Os dirigentes viram que vários times de cidades vizinhas estavam se profissionalizando e que o futebol da Veterana estava em ascensão. Por isso, sentiram a necessidade de profissionalizar o departamento de futebol.

Como foi a sua estreia pela Veterana?
Por curiosidade as minhas duas primeiras partidas pela Caldense foram justamente as que nos deram o acesso à Divisão Especial, em fevereiro/março de 72. Estreei no jogo de ida contra o Nacional em Muriaé e empatamos por 0 a 0. Na partida de volta vencemos por 2 a 0 e subimos para a primeira divisão, um feito inédito para a Caldense. E eu fui abençoado por Deus com muita sorte, pois nesses dois jogos fui eleito o melhor em campo pela Rádio do Lázaro Walter Alvisi, Lira, Orlando e Chico. Ganhei até um rádio portátil como prêmio. Isso me favoreceu demais, deixei meu cartão de visitas e caí na graça do torcedor da Veterana e do povo de Poços de Caldas.

Quais eram as suas principais características como atleta e estilo de jogo?
O futebol daquela época era mais pegado. Hoje existe o cartão amarelo, existem regras que proíbem alguns tipos de carrinho, mesmo sendo na bola. Naquele tempo não. Eu me impunha mais pelo meu condicionamento físico. Eu gostava de treinar, era sempre o primeiro a chegar e o último a sair. Em Poços de Caldas nós costumávamos sair correndo do Cristiano Osório, ir até o topo do morro do Cristo e voltar. Eu levava muita vantagem sobre os atacantes pela minha impulsão, pelo comprimento da perna e também pelo pé número 45. Além disso, fiquei com a fama de mau, de bater muito nos adversários. Mas graças a Deus nunca quebrei a perna de um companheiro de profissão, nem cometi uma contusão gravíssima. Eu chegava forte em respeito à camisa da Caldense. Queria defender as cores da Veterana, representar o povo de Poços de Caldas. Nunca gostei de perder, por isso dava o meu melhor dentro de campo, até a última gota de suor.

As pessoas conheciam a sua raça dentro de campo. Mas como você se comportava fora dele? Era brincalhão com o grupo?
Dentro de campo eu era estourado, mas fora sempre fui muito social. Tanto é que teve uma vez que nós precisávamos golear uma equipe e, por não termos conseguido, cheguei ao vestiário e disse que faltou empenho, cobrei o pessoal e fiquei um tempo brigado com a turma. Acho que somente uns três jogadores estavam falando comigo. Tudo isso se deu porque eu sentia que nós tínhamos condições de conseguir o resultado. Mas esse foi um fato isolado, no geral sempre fui tranquilo.

Uma das coisas mais marcantes no Buzuca era o visual emblemático. No seu começo de carreira o senhor usava cabelo curto e barba feita. Já nos primeiros anos de Caldense passou a usar a aparência um pouco diferente. Por que o senhor adotou o visual cabeludo e barbudo?
Naquela época alguns jogadores brasileiros começaram a usar esse visual, o cabelo e a barba por fazer. Eu achei que isso poderia me colocar mais assustador para os centroavantes e resolvi adotar. Realmente foi uma marca que ficou dentro do futebol mineiro.

No dia 07 de setembro 1972, a Caldense comemorava 47 anos e contratou o Olaria de Garrincha para fazer um amistoso festivo. Por mais que ninguém esperasse, aquela acabou sendo a última partida do “anjo de pernas tortas” como jogador profissional. O que o senhor lembra dessa oportunidade?
O Garrincha era um mito. Ele já não tinha mais aquele condicionamento físico e a técnica apurada que o consagrou no Botafogo e na Seleção. Mas era um Garrincha que todo mundo queria ver. O Cristiano Osório ficou lotado e até eu fui lá e pedi pra tirar uma foto com ele. Mas dentro de campo a Caldense se impôs, fez uma partida espetacular e saímos vitoriosos por 5 a 1.

Como foram as primeiras experiências da Veterana na Divisão Especial do Campeonato Mineiro?
Nós sabíamos que poderíamos ser a terceira força do futebol mineiro, pois as primeiras eram indiscutivelmente Atlético e Cruzeiro. Não nos propusemos a ser campeões mineiros, nosso objetivo era ser campeão do interior e superar o América. Em 72 chegamos perto, terminamos na quinta posição e em 73 ficamos em sétimo. Mas em 74 começou a melhor equipe que a Caldense poderia ter montado. A imprensa de Belo Horizonte não aceitava de jeito nenhum que nossa equipe pudesse fazer frente às equipes da capital, porém, nós os enfrentávamos de igual para igual. Por alguns anos, fomos sem dúvida nenhuma a terceira força do estado. Conquistamos o título de campeões mineiros do interior em 74, 75 e 76.


Os anos 70 ficaram marcados pelos grandes craques que vestiram a camisa alviverde. O que o senhor poderia falar desses atletas?

O nosso time começava por um grande goleiro, o Gilberto Voador. Nós já tínhamos o Tonho, mas quando o Gilberto chegou ele surpreendeu todo mundo com tamanha qualidade. Nossa defesa era muito sólida. Tínhamos o Neto e outros jogadores com excelente nível, como o Militão que era uma promessa da cidade, o Camilo como zagueiro central, o Edinho e o João Preto na lateral esquerda. Depois a Caldense trouxe o Aílton Lira que era um jogador perfeito e desequilibrava qualquer partida, o Augusto, o Cafuringa que era um goleador nato, o Ganzepe que era muito veloz, o Márcio. Enfim, a Veterana tinha um timaço, éramos respeitados pelas grandes equipes de Minas, São Paulo e até do Rio.

Qual esquema tático vocês utilizavam? Como era a postura dos zagueiros na época?
Eu sempre marquei os adversários olhando no olho, eu não olhava pra bola. O zagueiro que marca olhando para a bola, tem dificuldade. Quando se marca olhando no olho, dá pra perceber o que o oponente vai fazer, para que lado vai sair. Nós jogávamos no 4-2-4 ou 4-3-3 e cada zagueiro era responsável pelo seu setor. Sempre havia muitos adversários ali na área e eu combinava com o Neto que da marca do pênalti pra frente era dele e da marca do pênalti para trás era meu. Dava sempre certo, eu e o Neto formamos uma dupla muito boa na Veterana.

Além dos grandes jogadores que vestiram a camisa alviverde na década de 70, alguns treinadores assinaram seus nomes na história do clube. O que você poderia destacar dos técnicos que teve a oportunidade de trabalhar na Veterana?
Quando cheguei, o treinador era o Juquita. Ele era voltado mais pelo lado espiritual, tinha umas crenças diferentes, que eram comuns no futebol brasileiro. Ele era muito amigo, solidário e bastante experiente. Já o Carlos Alberto Silva chegou na Veterana praticamente desconhecido, mas tecnicamente era espetacular. Ele era formado em educação física e havia feito estágio nas equipes da capital. Quando ele chegou, encontrou um grupo muito forte e todo mundo assimilou bem o que ele queria. Ele não chegou a Poços para ser um mero treinador, ele chegou para se projetar a nível nacional e internacional, o que realmente aconteceu. Campeão brasileiro pelo Guarani e técnico da seleção brasileira. Também tivemos o Orlando Fantoni, que não podemos esquecer. Ele foi um cara excepcional, que teve uma passagem sensacional pela Caldense. Eu nunca vi um treinador tão amigo da imprensa, dos jogadores e da torcida. Ao ponto de quase que semanalmente organizar um almoço para unir os jogadores e a mídia. Ele cozinhava muito bem e fazia isso pra trazer a imprensa pra jogar junto com a gente, porque a imprensa faz o futebol e destrói o futebol. Tenho muita saudade dos amigos que fiz na imprensa de Poços, amigos eternos, alguns já se foram, outros perdi o contato, mas me emociono sempre que lembro deles.

Todo ex-jogador da Veterana fala muito sobre o Estádio Coronel Cristiano Osório. Como era o sentimento de jogar lá? Como era a relação torcedor-jogador?
Cristiano Osório era sensacional. Você saia do vestiário e já dava de cara com a torcida. Você ia bater lateral e estava a um metro da torcida. A gente olhava para as arquibancadas e conhecia todo mundo. O pessoal gritava o nosso nome. Durante um período a Veterana se tornou imbatível. Não tinha time que chegava a Poços e conseguia nos derrotar com facilidade. O estádio se tornou nossa cozinha. O lema entre os atletas é que ali nós íamos fazer nosso banquete em cima dos adversários. Chegou uma época que precisaram fazer do lado da geral, uma arquibancada de madeira, que dava costas para o mercado municipal. Todo ano havia a necessidade de ampliar a capacidade, pois não tinha mais aonde colocar gente. Os jogos começavam às 15h, quem não chegasse antes das 13h30 não entrava mais no campo. O estádio era muito central também, ninguém precisava pegar ônibus nem ir de carro, todo mundo ia a pé. Todos os jogos eram completamente lotados. Em algumas partidas o pessoal assistia ao jogo de dentro da sede social, empoleirado no muro das piscinas, na rua de cima, nas casas ao redor. Era uma coisa fantástica, isso nos estimulava muito.

Qual é sua partida inesquecível pela Caldense?
Foram muitas partidas marcantes, grandes atuações da nossa equipe, fica difícil pra citar só uma. Mas uma que ficou marcada pra mim foi um amistoso que fizemos contra o Corinthians em 72 ou 74. Na época eu gostava muito da equipe alvinegra e foi uma alegria muito grande conhece-los pessoalmente. Foi um jogo diferente, contra uma equipe que não estávamos costumados a jogar.

Você chegou a marcar gols pela Veterana?
Naquela época era muito difícil os treinadores deixarem os zagueiros subirem para a área adversária em lances de bolas parada. Mas invariavelmente eu marcava alguns gols. Não me recordo mais como foram os lances ou contra quem foi, mas acredito ter feito de seis a oito gols pela Caldense.

Uma das passagens mais conhecidas da sua carreira foi quando o Reinaldo, maior ídolo da história do Atlético-MG, deu uma entrevista dizendo que quem já havia enfrentado o Buzuca não poderia ter medo de mais nada no mundo. Qual o contexto dessa história?
Foi na época da Copa de 1978. O Brasil ia jogar contra a Argentina, que tinha vários jogadores brutos. E perguntaram pro Reinaldo como ele ia fazer pra enfrentá-los. Me lembro de estar em casa quando um vizinho disse que o Reinaldo estava falando de mim na televisão. Liguei a TV correndo e o ouvi dizendo que quem já tinha me enfrentado não poderia ter medo de nenhum outro zagueiro do mundo. Ele também falou que o clima frio da Argentina não seria um problema, pois já estava acostumado com o frio de Poços de Caldas. Essa história saiu em toda a imprensa brasileira e me possibilitou ficar conhecido quase que em todo o Brasil.

No meio futebolístico sempre acontecem causos engraçados. O senhor se recorda de alguma história que mereça ser registrada?
Dentro da Caldense o que marcou muito foi a passagem do Juquita com o pássaro preto, que ficou famosa no mundo todo. Diziam que ele e o Benê (massagista) eram feiticeiros. O Juquita começou a gostar disso e passou a fazer uso dessa fama para assustar os adversários. Ele ascendia vela preta e jogava sal grosso no vestiário dos oponentes, a turma ficava apavorada. Esse assunto saiu até na Placar, que era a revista esportiva mais famosa do Brasil. Mas depois de um tempo as coisas se viraram contra a gente, os adversários começaram a fazer macumba e colocar cartazes no nosso vestiário dizendo “fora capeta, fora não sei o que lá” (risos). Lembro de outra passagem também. Quando íamos jogar, ficávamos concentrados em hotéis. E o Cafuringa tinha mania de fugir para ficar espiando as moças dos outros quartos pelo buraco da fechadura. Certa vez o pegaram. Deu uma confusão danada e quase nos expulsaram do hotel. Por conta disso, o Juquita me colocou como “segurança do Cafuringa”. A gente passou a dividir o mesmo quarto e eu tinha que ficar vigiando ele o tempo todo. Se eu saísse do quarto tinha que trancar ele lá e levar a chave. Se fossemos jantar ou até mesmo ao banheiro, não podia dar bobeira, era um descuido e ele aprontava (risos). Outra história que a turma lembra muito foi envolvendo o primeiro ônibus que a Caldense teve. As viagens que fazíamos eram sempre longas e às vezes voltávamos de madrugada. E o Sr. Luiz, que era nosso motorista, costumava dormir ao volante. Por conta disso, eu tinha que ficar ali conversando com ele, para não deixa-lo pegar no sono. De vez em quando tinha até que bater palmas para despertá-lo. Então, quando eu saía de perto dele pra tentar tirar um cochilo, o pessoal me acordava, dava tapa na cabeça e mandava voltar lá pra frente. Eles diziam: “Você é o vigiante do Sr. Luiz, se você não cuidar deles, todos nós vamos para o buraco”. No fim das contas todo mundo chegava em Poços descansado e eu chegava quebrado (risos).

Como foi sua trajetória no futebol depois que saiu da Caldense e o que tem feito desde que pendurou as chuteiras?
Em 76 fui emprestado para o América-MG para disputar o brasileiro, mas praticamente não joguei. Aconteceram algumas coisas estranhas. Eu recebia um pouco mais do que os outros jogadores e por conta disso houve divergências no elenco. Inclusive o treinador era muito disciplinador e não me deixava usar o nome Buzuca, tive que usar Antônio Carlos mesmo. Depois de cinco meses lá, voltei pra Caldense e permaneci até o meio de 79. Em seguida fui para Taubaté. Disputamos a divisão de acesso e conseguimos ser campeões. Em 80 as coisas mudaram muito por a equipe ter subido, houve a necessidade de trazer jogadores mais renomados, inclusive na minha posição. Contrataram o Alfredo Mostarda, que jogou no Palmeiras. Mas eu tinha plena condição de jogar no lugar dele, tenho certeza disso. Porém trocaram o nosso treinador, mudaram a filosofia de trabalho e acabei me transferindo para Guaratinguetá, onde fiquei por um ano de meio. Em seguida fui para Santo André e depois para São João da Boa Vista. Atuei pelo Palmeiras de São João e pela Esportiva Sanjoanense, meu último clube. Posteriormente tentei carreira como treinador por seis meses. Mas não tinha muita paciência e queria transformar as pessoas no meu jeito de ser dentro de campo. Vi que a coisa não estava dando certo e parei. Me mudei para Varginha, trabalhei por alguns anos na prefeitura, me aposentei e hoje presto serviço para a Associação Varginhense de Esporte (AVE), onde tomo conta de um projeto sem fins lucrativos que oferece treinamentos para mais de quatrocentos garotos.

O que faltou para você ter uma oportunidade em um clube maior e alçar voos mais altos?
A melhor fase da minha carreira foi realmente na Caldense, com certeza. Não só pela idade, mas pelo futebol que eu estava jogando, pela equipe que tínhamos. Mas me faltou a possibilidade de sair para uma equipe maior porque a própria diretoria da Caldense me respeitava muito. Sempre que meu contrato terminava, eles faziam uma nova proposta, que me satisfazia na época. Eu até cheguei a ter uma pequena chance de sair para um clube maior, mas procurei não me arriscar muito.

O senhor enfrentou os grandes craques do futebol brasileiro. Pelé, Garrincha, Tostão, Roberto Dinamite e tantos outros. Qual te deu mais trabalho?

Enfrentei o Pelé duas vezes, uma pela Caldense e outra pelo Taubaté. O Pelé era coisa de outro mundo, gênio mesmo, sabia tudo. Foi uma noite fria naquele dia de 74, as equipes entraram em campo e consegui tirar uma foto com ele. No começo do segundo tempo começou a chover muito, o campo ficou pesado e perigoso. Por conta disso, resolveram tirá-lo. Fizemos um bom jogo, mas perdemos por 1 a 0 para o Santos. O Garrincha enfrentei apenas uma vez. Na verdade tive a oportunidade de jogar contra quase todos os grandes jogadores daquela época. Mas pelo número de jogos, o que mais me deu trabalho foi o Reinaldo. Ele era fantástico, visão de jogo espetacular, se posicionava bem, muito veloz. Foi sem dúvida o jogador mais perfeito do futebol mineiro. Porém, não posso deixar de citar jogadores bem técnicos, como o Tostão e Dirceu Lopes, que também eram espetaculares.

Já faz praticamente 40 anos desde que você vestiu a camisa da Caldense pela última vez. Eu mesmo nunca te vi jogando, mas sou seu fã de tanto ouvir falar bem. Qualquer um que fala sobre a Veterana cita o seu nome. O que representa pra você ter o reconhecimento da mídia e dos torcedores até hoje?
Isso representa tudo. Eu sou respeitado porque eu respeitei também. O torcedor não via na minha figura só um jogador de futebol. Via um ser humano que honrava aquela camisa verde e branca noventa minutos, dez milhões de minutos. Tudo o que vivi na Caldense foi bom. Eu saí de casa muito cedo e quando cheguei a Poços fui muito bem acolhido, fiz grandes amizades. Em nenhum outro clube encontrei um ambiente tão agradável e familiar. Mas o que mais me marcou na cidade foi o nascimento dos meus três filhos, que tenho o orgulho de dizer que são poços-caldenses. Aliás, um dos maiores arrependimentos da minha vida foi ter saído de Poços de Caldas. Não que eu esteja mal em Varginha, pelo contrário, fui muito bem recebido aqui e sou muito conhecido na cidade. Mas sinto muita saudade de Poços, se eu tivesse continuado por lá, com certeza teria uma qualidade de vida melhor. Nem sempre consigo ir a Poços, devido às cirurgias que fiz na perna, mas quando vou para passear ou ir ao médico sinto uma nostalgia enorme. Fiz amizade com todos os tipos de pessoas de todas as classes e raças. Hoje sou Caldense roxo mesmo. Torço, vibro, me emociono, tenho sentimentos pelo time. Na minha casa, como você pode ver é tudo verde. Faixada verde, pintura verde, tapete verde.

Quem conversa com o senhor percebe nitidamente todo o amor que você tem pela Veterana. É algo que mexe com seus sentimentos e enche seus olhos de lágrimas. Baseado nisso gostaria de te perguntar: o que a Caldense significa para você?
Tudo. A Caldense significa muito para mim. A Caldense é uma instituição que merece muito meu respeito, assim como seus funcionários e diretores. Tanto os daquela época, quanto os de hoje. O povo de Poços de Caldas tem minha admiração e os torcedores merecem um abraço apertado meu…porque…realmente…eu…fui muito bem recebido por eles. A Caldense representa a minha vida e algumas gotas de sangue dentro do meu coração.

Buzuca, em nome da torcida da Caldense e do povo de Poços de Caldas, quero te agradecer por tudo o que você fez pela Veterana, pela nossa cidade e te parabenizar pelas alegrias que nos trouxe. Gostaria de te desejar vida longa, mas isso não é preciso, pois o senhor já é eterno.
Eu é que agradeço muito. Espero muito em breve ir a Poços. Quero entrar no Ronaldão, sentar no meio da torcida e vibrar muito. Aproveito a oportunidade para mandar meus fluidos de muita honra e respeito à camisa aos jogadores da Caldense. Não os conheço pessoalmente, mas eles vestem hoje um manto que eu já vesti. Portanto, vamos respeitar esse manto com muito carinho. Um grande abraço à todos e muito obrigado.