Morre aos 95 anos o Jornalista Décio Alves de Morais

Falecimento de Sr. Décio deixa lacuna na imprensa poços-caldense (Foto: Renan Muniz / Caldense)

Faleceu no final da tarde desta terça-feira (25), aos 95 anos, o jornalista Décio Alves de Morais. Décio viu de perto os acontecimentos mais importantes da história da Caldense e registrou inúmeros momentos marcantes em fotos e textos. Seu trabalho único revolucionou, documentou e eternizou as mais diversas façanhas da equipe alviverde entre as décadas de 1940 e 1990.

O falecimento de Décio Alves de Morais deixa uma lacuna imensa na imprensa poços-caldense e é uma perda incalculável para a memória da história alviverde. A Associação Atlética Caldense manifesta os mais profundos sentimentos de pesar aos familiares e amigos. O corpo será velado a partir das 19h no Velório Municipal e o sepultamento está marcado para às 11h da manhã de quarta-feira, no Cemitério da Saudade.

Em outubro de 2017, Décio concedeu entrevista à Caldense, a matéria inclusive foi publicada na edição de setembro da revista do clube. Confira na íntegra a reportagem, em que Sr. Décio relata suas principais lembranças ao longo dos anos em que cobriu a Veterana.

 

O fundador

Convivi com o Joãozinho, filho do João de Moura Gavião, fundador da Caldense. Ele falava que seu pai era muito reservado, fechado e não chegou a lhe contar muitas coisas sobre a fundação do clube. Até porque a Associação surgiu em 1925 e o João de Moura faleceu em 1927.

 

Primeiros anos futebol

Nos anos primeiros anos de futebol, o clube não tinha muita rotina de treinos. Os próprios jogadores definiam os dias das atividades. Cada levava suas chuteiras, meias e calções. Mais para frente começaram a confeccionar camisas e jogar uniformizados. Os atletas tinham uma dedicação muito grande pelo time. Eles mesmos compravam o material e se apresentavam. Antigamente não havia muitos campeonatos, a maioria das partidas eram amistosas. Me recordo apenas de uma competição estadual em Caxambu. Estamos falando dos anos 30, 40 e 50.

 

O termo Veterana

Em 1940 a Caldense já tinha conseguido fama de ser um bom time. Na época o senhor Fosco Pardini, que foi presidente do clube por vários anos e tinha um amor muito grande pela instituição, estava pensando alguns nomes para se referir à equipe. Com isso, pelo fato de a Caldense ser um dos times mais antigos da região, ele começou a chamá-la de “Veterana”. O termo foi bem aceito e é utilizado até hoje.

 

Pó de Mico

Durante um período, havia uma turma que ficava assistindo aos jogos em um barranco atrás do gol e torcendo contra a Caldense. O Fosco Pardini via aquilo e não aceitava. Então, em um belo dia, mandou alguém esparramar pó de mico naquele espaço onde o pessoal ia ficar. Quando a turminha chegou e sentou no barranco, começaram a sentir uma coceira danada na perna e nem assistiram ao jogo, foram embora correndo. Até hoje devem achar que eram formigas.

 

Dondinho

Quando a Caldense viajava para jogar em cidades da região, o Sr. Juca Anacleto, presidente na época, telefonava para Três Corações e contratava o Dondinho, que era um grande jogador e depois veio a ser pai do Pelé. Ele exigia hotel e transporte para poder jogar. Lembro certa vez de um jogo em São José do Rio Pardo, onde ele reforçou a Caldense. No primeiro tempo ficou no banco e o time foi para o intervalo perdendo de 2 a 0. Então começamos a falar que estava na hora de colocar o Dondinho. O Juca foi lá e falou com o Dondinho. Ele entrou no jogo junto a um amigo que tinha vindo junto, fez um carnaval, marcou três gols e deu a vitória por 3 a 2 para a Veterana.

 

Ídolos

O jogador da cidade que mais chamou a atenção na Caldense nessas primeiras décadas, na minha opinião, foi o Tino. Ele era espetacular, tanto na defesa, quanto no ataque. Parecia ter sete fôlegos, jogava em qualquer posição, exceto no gol. Teve um jogo contra o Botafogo de Ribeirão Preto em que ele deu um show à parte e a Caldense ganhou por 3 a 2. Ele deixou saudades. Outro jogador que se destacou muito foi o centro-médio Pocidônio, que veio da Portuguesa de Desportos e virou praticamente dono do time. Cada dia que passava a equipe se superava e fazia grandes apresentações.

 

Mauro Ramos de Oliveira

Em todo lugar que o Mauro ia, ele levava a torcida junto. A cidade gostava muito dele, era um “gentleman”, sempre atendia à todos. Ele marcou época na Caldense, na década de 40 fez vários jogos por aqui. Ele era fora de série. Um estilo espetacular, com futebol excelente. Ele se destacou tanto que a Esportiva o levou para São João e de lá foi para São Paulo e depois Santos. Ele sempre colaborou muito com o Verdão, seja atuando como zagueiro ou em outras posições.

 

Brandãozinho

No interior de Minas não havia muitas equipes, somente na capital. Por isso a Caldense jogava muito no Estado de São Paulo. Frequentemente ia para Campinas enfrentar Guarani, Ponte Preta e o Campinas Futebol Clube. Trouxemos inclusive o Brandãozinho de lá, que foi jogador da seleção brasileira. Ele cismou que queria vir para Poços. Nós conseguimos a adesão dele e ele ficou um bom tempo na cidade jogando pela Veterana.

 

Rivalidade

O principal rival da Caldense era a Esportiva Sanjoanense. Todo jogo em Poços ou em São João da Boa Vista lotava o estádio. Inclusive em algumas partidas, os torcedores da Veterana foram de trem até o interior paulista para assistir. Era uma rivalidade sadia, nunca houve problemas. A maior goleada que recordo no confronto foi uma vitória da Caldense por 5 a 1 em Poços.

 

A torcida

A torcida alviverde se reunia no Café do Henrique, no Mercado Municipal. Ali o pessoal comia pastel, lanche, ficava na expectativa e decidia o que seria feito antes do jogo. Havia até um painel onde escreviam a escalação dos jogadores. Muita gente comparecia e apoiava incondicionalmente. Lá era o ponto de encontro também depois dos jogos. A turma comentava os lances da partida e tudo mais. Em 1950 criaram a  Torcida Organizada Caldense, mas não havia muita organização. Alguns levavam instrumentos para agitar e vibrar.

 

Seleção de 58 em Poços

Em 1958 a seleção brasileira esteve em Poços de Caldas para se preparar para a Copa da Suécia. O período foi muito bom. O Brasil ficou hospedado no Quisisana Hotel. Na hora do treino, um ônibus levava a delegação para o campo da Caldense. Quando iam trabalhar a parte física, as atividades eram no Country Club. A estadia deles aqui foi maravilhosa, demos total cobertura. Ficou marcado como um dos maiores acontecimentos esportivos de Poços. Tanto é que a equipe foi campeã mundial.

 

57 partidas invictas

Entre 1960 e 1961 a Caldense montou um time imbatível. Vencia todos os adversários e às vezes empatava alguns jogos. A cada dia que passava, a sequência de invencibilidade ia aumentando, o time jogava melhor e a expectativa por mais vitórias crescia. Inclusive tinha um desenhista bastante talentoso na cidade, chamado Sálvio de Araújo, que em todos os jogos publicava uma charge falando sobre o resultado da partida. Isso marcou muito. A torcida jogava junto, mas também havia uma turma que torcia contra, para ver a Veterana ser derrotada. Após 57 partidas sem perder, a Caldense foi superada por 1 a 0 para o Circulista de Araras. Foi uma decepção. O clima dos jogadores após a partida era totalmente triste. Eu estava no campo e foi lamentável perder daquele jeito, com um gol no finalzinho. O gol do Circulista surgiu numa bola pelo lado esquerdo do campo de ataque. O rapaz levou ela para a área e conseguiram driblar a defesa da Caldense. Quando olharam, a bola já estava na rede. Um pecado. Mas enquanto a sequência durou foi maravilhoso, não é qualquer time que alcança um feito desse.

 

A doação das terras do Cristiano Osório

A Caldense tinha vários diretores. Um deles era o José Geraldo Parreira, que vivia em Poços e tinha família em São João da Boa Vista. Então o contato da Caldense com o Coronel Cristiano Osório, que morava em São João e era dono do campo Chalé Procópio onde o time jogava, era feito através dele. Aos poucos foram passando as informações da Veterana para lá, conversando, até que um dia marcaram uma reunião e o Coronel Cristiano Osório resolveu doar totalmente as terras para o clube, sem pedir nada em troca. Uma atitude nobre que merece ser reconhecida

 

A profissionalização

A Caldense fez muito bem em ter se profissionalizado. Foi algo que começou no final dos anos 60 e teve desfecho no início dos anos 70. Nessa época havia militares que colaboravam com o clube e ajudaram na profissionalização. Disso em diante o time foi levando até começar a disputar o Campeonato Mineiro. Depois se projetou nacionalmente.

 

Garrincha em Poços

Em 1972 o Olaria de Garrincha veio a Poços para um amistoso em 7 de setembro. Foi a última partida do “anjo de pernas tortas” como profissional. A Caldense estava em uma fase excelente e ganhou de 5 a 1.  Após o jogo o Garrincha foi muito modesto, atendeu todo mundo, brincou com todo mundo, um verdadeiro garoto. Ele soube reconhecer que a Caldense jogou melhor e ressaltou a qualidade dos jogadores alviverdes.

 

Pelé em Poços

No ano de 1974 o Santos jogou contra a Caldense, no Cristiano Osório, em uma partida combinada para pagar parte do passe de Luiz Carlos Beleza, lateral que havia sido contratado pelo alvinegro praiano. O jogo foi em uma quarta-feira a noite, com muita chuva. O Santos venceu por 1 a 0. O campo estava escorregadio e por conta disso o Pelé foi substituído no segundo tempo. Foi o último jogos dele em Minas Gerais.

 

O hino

Eu era muito amigo do José Raphael Santos Netto. Ele foi um poços-caldense de grande valor. Haja vista sua história, criou a bandeira e o brasão da cidade, idealizou o Cristo Redentor. Ele queria que a Caldense tivesse algum registro musical no futebol, então se propôs a fazer um hino e doar para o clube. Como ele era muito inteligente, fez um grande trabalho e publicou a canção “Verdão” em 1973. Na época ela demorou a pegar, mas hoje todo mundo conhece a letra e sabe cantar.