Gilberto Voador

Entrevista com Gilberto Voador

O goleiro que alçava vôos

Renan Muniz
Existem goleiros que se esticam para defender uma bola, outros tem boa impulsão, mas apenas um sabe como alçar vôos. Gilberto de Oliveira nasceu em Divinópolis-MG no ano de 1947 e recebeu o apelido de “Voador” ainda na infância. Atuou por Guarani, Formiga, Portuguesa, Atlético de Três Corações. Mas foi na Caldense que virou lenda e se tornou um dos melhores goleiros da história do futebol mineiro.
Confira na íntegra a entrevista de Renan Muniz com o ídolo Gilberto Voador


É uma alegria imensa estar em Divinópolis-MG para registrar um pouco da sua carreira. Obrigado por nos receber aqui na sua casa!
Eu é que agradeço por essa oportunidade. Quero aproveitar para mandar um abraço à toda Poços de Caldas, um lugar que adotei como minha segunda cidade natal.
Quando as crianças começam a praticar o futebol, sempre querem jogar no ataque e fazer gols. Como você descobriu o seu talento para goleiro?
Bom, isso veio de berço. Eu jogava no meio do pessoal maior, dos mais velhos e sobrava somente o gol. Então fui tomando gosto e foi onde me tornei goleiro.
Como foi seu início de carreira no futebol e como você se tornou profissional?
Eu iniciei no infantil do Guarani de Divinópolis. Passei por todas as categorias do clube até subir para o profissional em 1966. Permaneci até 1969, pois o Guarani encerrou suas atividades profissionais. Quando saí, fui para o Formiga, depois para o Paraense em Pará de Minas e em 1970 fui emprestado para a Portuguesa de Desportos. Posteriormente retornei à Minas para jogar no Atlético de Três Corações e em seguida fui para a Caldense.
Gilberto Voador, Buzuca, Neto, Luis Dário, Arnaldo e Wilson Botão.
Augusto, Jeremias, Cafuringa, Aílton Lira e Jota Lopes.

Queria que você fizesse uma retrospectiva da sua passagem na Veterana, comentando individualmente cada temporada em que você vestiu a camisa alviverde.

Eu tive o prazer de integrar um dos maiores times que a Caldense já formou. Que era Arnaldo, Buzuca, Neto, Wilson Botão, Luis Dário, Jeremias, Aílton Lira, Augusto, Cafuringa, Ganzepe ou às vezes o Márcio. Do que eu acompanhei de Caldense, esse foi o maior time que já vi. Depois ainda participei de outras duas gerações da Veterana, com Jânio, Camilo e outros grandes jogadores. A Caldense tinha um super time, mas a vantagem daquela equipe é que todos se consideravam irmãos. Não tinha jogador que ficava no canto fazendo fofoca. O sucesso foi justamente essa união. Quando cheguei o treinador era o Juquita. Peguei ainda vários outros técnicos como o Carlos Alberto Silva, que foi um excelente treinador e ficou conhecido no Brasil inteiro. Mas depois o time foi se desfazendo. Alguns saíram, outros pararam e eu fui ficando. No total joguei por nove anos na Veterana, de 1974 até 1983.
Como foi sua trajetória depois que saiu da Caldense e o que passou a fazer quando pendurou as chuteiras?
Vim embora de Poços de Caldas em 1983. Fiz questão de voltar para Divinópolis para encerrar minha carreira no Guarani, em agradecimento ao clube, pois se não fosse o Guarani eu não teria tido uma carreira no futebol. Em 1984 fui convidado para treinar o Nacional de Uberaba, que estava na última colocação do Campeonato Mineiro. Conseguimos escapar do rebaixamento. Inclusive nesse ano quem caiu foi Caldense e Alfenense. No ano seguinte, retornei à Divinópolis, como treinador do Guarani. Em seguida comecei a trabalhar nos clubes sociais aqui da cidade como coordenador de esportes. Em 1988 atuei como preparador de goleiros do Guarani, quando o nosso goleiro Assis foi o menos vazado da competição. Posteriormente voltei a trabalhar nos clubes sociais e continuo nessa função até hoje.
Gilberto Voador em 1978
com a camisa nº 1 no Cristiano Osório

Todos que te viram jogando dizem que você foi um mito como goleiro, que tinha um nível de jogo acima da média e que teria vaga em qualquer clube. O que faltou para você ter uma oportunidade em uma equipe maior?

Hoje os jogadores são livres para escolher onde jogar. Antigamente, devido ao passe preso, éramos escravos dos clubes. Eu tinha meu passe preso ao Atlético de Três Corações. Era para eu ter ido para a Caldense em 1971, mas consegui a liberação do passe somente em 74, pois o Atlético foi rebaixado à segunda divisão. Nisso fiquei com o passe livre e o estipulei. Era 50 alguma coisa, não me recordo o dinheiro da época, mas era uma boa quantia. Fui para a Caldense, que estava fazendo um bom campeonato. Recebi proposta do Atlético Mineiro, do Vasco. Mas a Caldense comprou meu passe e acabei ficando no clube. Eu não reclamo não. Consegui criar minha família e ter condições de vida graças ao dinheiro que recebi no futebol.
Uma das partidas mais marcantes da história Caldense foi o amistoso contra a Seleção Brasileira de 82, que aconteceu em março de 81. O que você lembra daquela oportunidade?
A Seleção fez vários amistosos com os times do Sul de Minas. Alfenense, Guaxupé e ganhou sempre de goleada. Mas contra a Caldense eles tiveram um pouco de dificuldade. Eles pensavam que a partida seria igual aos outros jogos, que eles ganharam de 11, de 16. Perdemos por 1 a 0, com um gol de pênalti inventado. Lembro do lance direitinho. Foi um escanteio onde eu saí e soquei a bola. Ela caiu na intermediária no pé do Sócrates. Do jeito que ela veio ele bateu. O Paulo Roberto estava atrás de mim. Eu saltei empurrando ele e toquei a bola, que bateu no travessão. Aí deram o pênalti. Quando o Zico foi bater, chegaram para mim e falaram: “se pegar volta, até fazer o gol”. Então aquilo já até tira o seu entusiamo de tentar defender, pois de todo jeito você sabe que vai levar o gol. Mas temos que considerar que era um jogo-treino e que os caras tinham que treinar, pois estavam se preparando para uma copa do mundo. Foi um jogo bom. Apesar de atacar pouco, a Caldense teve até chances de gol.

Seleção Brasileira e Caldense em 12 de março de 1981
Você recorda alguma história engraçada da sua passagem pela Veterana?
O treinador da Caldense era o Juquita, um cara folclórico, que fazia macumba. E tinha o Benê, que era tipo um auxiliar dele. Certa vez eles foram em um cemitério, nas vésperas de um jogo da Caldense. O Juquita foi fazer os trabalhos dele lá, caiu dentro de uma cova e começou a gritar desesperado: “Socorro Benê, me tira daqui! Estão querendo me levar para o outro lado!” (risos). Às vezes ele ia ‘dar passe’ nos jogadores, fazia uma roda de pólvora no chão, colocava a turma no meio e ateava fogo. Ele era realmente folclórico.
Gilberto Voador no Ronaldão em 1979.

Quais foram suas partidas inesquecíveis pela Caldense?

Foram várias, fica até difícil para enumerar. Estreamos pelo Brasileirão de 1979 em Caxias do Sul com vitória por 1 a 0 com gol de Natal. Foi uma pressão total. Consegui fazer grandes defesas e inclusive ganhei a camisa New Light, como prêmio por ter sido o melhor jogador em campo. Em 81 teve um jogo contra o Cruzeiro, que peguei várias bolas difíceis, mas perdemos por 1 a 0 nos acréscimos.

Tem alguma defesa marcante que você possa descrever o lance em detalhes?
Lembro de um jogo entre Caldense e América no Mineirão, onde aconteceu comigo um lance idêntico à aquela defesa do Gordon Banks na cabeçada de Pelé na Copa de 1970. Quem dera que naquela época nossos jogos fossem todos filmados. É uma pena não ter essas recordações em vídeo. Sinto muitas saudades.
Você chegou a pegar alguns pênaltis?
Peguei vários pênaltis ao longo da carreira, inclusive bati alguns também. Teve uma disputa de pênaltis entre Atlético de Três Corações e Caldense em 1971 para decidir uma vaga para a divisão especial de 1972. Eu estava na equipe de Três Corações. Naquela época era uma pessoa só que batia os cinco pênaltis. Eu errei os dois primeiros e defendi os dois primeiros do Osmar. Depois fomos para os alternados, consegui marcar um e defender outro logo em seguida. Com isso, o Atlético se classificou. Posteriormente, arrumaram um jogo para a Veterana contra o Nacional de Muriaé, que venceu e também foi para a primeira divisão.
 
Nos rachões você jogava na linha ou seu negócio era somente fechar o gol?
Nos rachões eu era atacante, fazia muitos gols e sempre meu time ganhava. Porque eu lá na frente sabia matar os goleiros (risos).
E frango, já levou algum?
O goleiro que falar que nunca levou frango é mentiroso (risos). Lógico que acontece de você levar um gol que não estava esperando. Porque é uma coisa que em um piscar de olhos, em um segundo, você perde o contato da bola e é surpreendido. Recordo de um amistoso entre Caldense e URT. Foi um jogo a noite em um campo ruim, cheio de touceira. A partida estava se encaminhando para terminar em 0 a 0, quando um jogador deles deu um chute pra cima para tirar a bola. Eu fiquei esperando ela chegar até mim. De repente ela quicou em uma touceira, mudou de direção e entrou. Perdemos por 1 a 0.
Walter Tambaú e Gilberto Voador,
goleiros que marcaram época na Caldense.

Você tinha 1,78 de altura. Para aquela época não era tão alto assim. Mas você se beneficiava de outras características para fazer as defesas. Quais eram seus pontos fortes?

Toda vida eu tive uma impulsão muito boa e muita agilidade. Gostava de treinar na caixa de areia, pois quando ia para o gramado, ficava mais leve.
O goleiro tem uma visão privilegiada, vê o jogo de frente. Quais instruções você costumava passar aos jogadores?
Dentro de campo o goleiro é o segundo treinador. Ele tem a obrigação de orientar a defesa e até mesmo o ataque. Eu costuma gritar com os laterais pra não deixarem os atacantes cruzar a bola, ajeitava o posicionamento dos beques nas jogados de bola parada e arrumava a barreira nas faltas.
Como era a rotina de treinamentos dos goleiros?
Naquela época não existia treinador de goleiros. Quem nos treinava era os próprios goleiros do time. Eu, o Walter Tambaú e o Paulão sabíamos o que era necessário e bolávamos nos próprios exercícios.

Gilberto se aquecendo para mais um jogo

O que vocês faziam nas concentrações para os jogos?

O divertimento nosso era o jogo de buraco, às vezes jogávamos pebolim, essa era nossa distração. Muitas vezes ficávamos no quarto resenhando, se preparando para o jogo, conversando sobre as dificuldades que iriamos enfrentar durante as partidas.

Como surgiu seu apelido “Gilberto Voador”?
Foi aqui em Divinópolis, na época do infantil. A garotada tudo tinha 1,50 – 1,60 m, em baixo de um gol de 2,46 m. Eu costumava saltar e me esticar todo para defender as bolas. Por isso, começaram a me chamar de voador, voador, voador e foi onde pegou o apelido.

Como eram as luvas, chuteiras e bolas que vocês utilizavam?
O goleiro brasileiro passou a usar luvas de 1970 para cá. Era um material muito ruim, duro. Hoje os jogadores são muito privilegiados, as chuteiras são leves. Na nossa época eram bem mais pesadas. Eu ainda peguei a época das bolas de couro, que eram complicadas de se defender, pois pesavam três quilos quando chovia. As bolas de couro duraram até mais ou menos 1972 e depois começaram a sair as bolas impermeáveis.
 
O que mudou no futebol na época que você atuava para os dias atuais?
O futebol hoje é baseado na força. Hoje se fabrica jogador, antigamente o jogador vinha de berço. Era um futebol técnico, quem corria era a bola. Hoje os jogadores correm mais do que a bola. Os times chegavam ao ataque com cinco ou seis jogadores, diferente de hoje que atacam com um ou dois. Por isso os goleiros hoje tem menos trabalho do que os de antigamente.
 
Gilberto Voador em 2017 (Foto: Renan Muniz)

Quais foram os atacantes mais difíceis que você já enfrentou?

Joguei contra grandes jogadores. Quando eu estava na Portuguesa jogava contra Ademir da Guia, Cesár, Copeu. Em Minas enfrentava Tostão, Evaldo, Dirceu Lopes, Reinaldo, vários atacantes perigosos. Eu fui um jogador privilegiado por atuar na época de Pelé, Gérson, Rivelino, Tostão e também na geração de Zico, Cerezo. Um período de ouro do futebol brasileiro.
Aliás, em qual goleiro você se inspirava?
Eu gostava de ver a atuação do Gilmar, goleiro do Santos e da Seleção. Ele era um cara calmo, frio. Acho que isso é essencial para um goleiro. Pois muitas vezes você tem que ter a frieza para superar os momentos difíceis de uma partida, se não a coisa fica pior.
 
Reparei que você tem alguns troféus aqui na sua casa. Quais são os mais importantes?
Tenho o Troféu Guará, que é o Óscar do futebol mineiro, uma chuteira de ouro, que era entregue pela Rádio Difusora, a bola de ouro do programa do saudoso Lázaro Walter Alvisi e alguns outros.
Hoje existem diversos programas de TV que destacam as melhores defesas da rodada. Você chegou a marcar presença em alguns programas da época?
Sim, várias vezes fui o goleiro da rodada no Fantástico. Tinha também o Globo Esporte, que passava alguns lances na segunda-feira. Em diversas oportunidades eles mostraram minhas defesas.
Gilberto posa para foto com um garoto

É comum vermos crianças brincando no gol e gritando o nome de seus goleiros favoritos ao praticarem uma defesa. Você já ouviu alguém gritando seu nome?

Por incrível que pareça em Divinópolis tem um rapaz que joga nos clubes com meu nome. Diversas vezes lá em Poços de Caldas a gente via garotos jogando bola, um falava que queria ser o Buzuca, outro queria ser o Neto. Coisas assim nos deixam muito vaidosos.
O que você sente em ter esse reconhecimento por parte dos torcedores, dos seus companheiros, da mídia e das pessoas do futebol em geral?
Realmente a torcida da Caldense me considera como ídolo. Sou muito grato a isso. Quando vou a Poços até hoje sou reconhecido nas ruas. Em relação aos meus companheiros de clube, tenho que dizer que o meu rendimento dentro de campo se deve muito aos esforços deles. Pois se eles não se saíssem bem, automaticamente eu também não me sairia. Então sou muito agradecido à eles também.
O que a Caldense significa pra você?
Olha, eu sempre falo que torço para dois clubes. O Guarani, por gratidão, por ter me aberto as portas para o futebol e a Caldense. Quando eu estava na Veterana, acompanhava os jogos do Guarani pelo rádio. Hoje, que moro em Divinópolis, acompanho toda a trajetória da Caldense, o que você me perguntar sobre a Veterana eu sei (risos). Porém, não vou mais em campo de futebol, não assisto mais aos jogos pela televisão. Não é mágoa, não é nada. Eu só acho que o futebol de hoje não condiz com o futebol da minha época. Hoje é totalmente diferente, o interesse é somente financeiro. Mas quando a Caldense vem aqui jogar com o Guarani, é o único dia que vou ao estádio. Inclusive torço pelo empate, mas quem ganhar está bom.
Estamos chegando ao final da nossa entrevista. Gostaria de te parabenizar por tudo o que você fez pela Veterana. Em nome da torcida alviverde, quero te agradecer por cada defesa, cada vez que você fez alguém vibrar, cada alegria que trouxe à cidade de Poços de Caldas. Desejo vida longa a você e abro espaço para que você possa fazer suas considerações finais.
Acho que eu é quem tem que agradecer por essa oportunidade que você está me dando. Sou muito grato ao povo de Poços de Caldas, que sempre me tratou muito bem. Uma cidade onde fiz grandes amizades com jogadores, torcedores, imprensa, comerciantes, funcionários da Caldense. Agradeço imensamente por tudo e deixo aqui um abraço à todos!