Augusto

Entrevista com Augusto

O ponta-direita, o artilheiro, o motorzinho

Renan Muniz
 
 
Arquimedes Augusto de Aguiar Júnior nasceu em Tambaú-SP, onde começou sua carreira. Atuou por Santos, América, Desportiva de Vitória e Esporte Clube União. Mas foi na Caldense que se consagrou e virou lenda. Vestiu a camisa alviverde de 1974 a 1979 e 1984. Se tornou um dos maiores artilheiros da história da Veterana e é considerado o melhor ponta-direita de todos os tempos do clube.
Confira na íntegra a entrevista de Renan Muniz com Augusto
Que alegria receber você aqui em Poços de Caldas para registrar um pouco da sua carreira, boa tarde!
Boa tarde. É um prazer imenso estar aqui com vocês para falar um pouquinho sobre a Veterana, uma associação que a gente tem um carinho muito grande. Obrigado pela oportunidade e estou à sua disposição.
Como foi sua chegada à Caldense?
Eu cheguei na Caldense em 1973. A Veterana foi com o time amador à Tambaú para jogar contra o time amador da minha cidade, onde eu jogava. Eu fiz um jogo muito bom, inclusive marquei o gol da vitória. E O Sr. Orlando Morais, que era o diretor do amador na época, me fez um convite para fazer um teste na Caldense. E aqui estava o goleiro Walter Tambaú, que era da minha cidade. Assinei um contrato de seis meses como amador, mas nos dois primeiros jogos que fiz, chamei a atenção do Orlando Fantoni e ele quis que eu fizesse um contrato definitivo no profissional. Como eu ainda era de menor, o Sr. Orlando teve de ir falar com meu pai para ele me autorizar a assinar um contrato profissional. Sinceramente, logo que cheguei, tive a certeza de que era isso que queria para a minha vida. Aqui tinha Aílton, que ainda não era chamado de Aílton Lira, Carlos Roberto, Buzuca. O Gilberto Voador ainda não tinha chegado, os goleiros eram Walter e Alfredo. Também tinha Lelo, Ganzepe, Arnaldo, João Preto, Wilson Botão, Luis Dário, Jeremias, Cafuringa. Eu era muito novo, 17 anos e tive um retaguarda muito boa de todos, que me aconselharam muito. Fui adquirindo confiança até estrear contra o América-MG, onde ganhamos de 3 a 0. Tive a oportunidade de jogar e comecei a mostrar meu futebol. E mesmo com três pontas-direita no elenco, eu acabei me tornando titular.
Caldense no Cristiano Osório em 1973.
Em pé: Buzuca, Toninho, Guilherme, Walter Tambaú, João Preto e Carlos Roberto.
Agachados: Massagista Rosa, Augusto, Arnaldo, Lelo, Aílton Lira e Ganzepe.
Quais eram suas principais características e jogadas?
O meu forte sempre foi a velocidade, o drible. Inclusive até me apelidaram de “motorzinho”, “flecha-ligeira”. Eu treinava muito velocidade, cruzamentos. Em alguns exercícios eu era meio relaxado, mas nas caminhadas de longa distância eu sempre era o primeiro. Nós tínhamos o Jota Lopes e o Aílton que lançavam muito bem a bola. A gente treinava muito isso depois do treino, eu entrando em diagonal entre os beques. Essa era a jogada forte da Caldense. Eu ía na linha de fundo e cruzava para quem vinha de trás. Nós fazíamos muitas jogadas pelas laterais, pelas pontas. Ali saiam muitos gols.
Augusto no início de carreira.

 

Os tipos de treinamentos no futebol mudaram muito. Como era a metodologia que vocês utilizavam naquela época?

Era uma dificuldade muito grande. De terça-feira era caminhada até o Cristo, à tarde era treino com bola. Mas não era aqueles fundamentos como hoje. O treino mesmo era teste físico de 100 e 200 metros ou trabalho com bola. Nós não tínhamos campo para treinar, os treinamentos eram no Cristiano Osório. Era um gramado com dimensões reduzidas, isso nos obrigava a jogar mais aberto pra ter espaço, eu de um lado e o Ganzepe de outro. Treinávamos muito chute a gol com Juquita, Carlos Alberto, Amilton Frade. Se alguém machucava, não tinha academia. Se tivesse uma distensão muscular, o tratamento era toalha quente e parafina. Você levava 40-60 dias para voltar, hoje em uma semana o jogador recupera. Hoje dá até para saber quantos quilômetros os jogadores correram em campo. Naquela época, acho que eu corria uns 20km (risos). Tudo mudou muito. Quando íamos viajar, saíamos na véspera, hoje o pessoal sai com bastante antecedência. Mas nós tínhamos um time muito unido.
Augusto em meados dos anos 70.

 

A Caldense foi tri-campeã do interior em 74, 75 e 76. O que você lembra desses campeonatos?

Nessa época a Caldense foi eleita a terceira força futebol mineiro. Fomos campeões do interior, do sul-triângulo. Nesses campeonato que não tinham Atlético e Cruzeiro sempre chegávamos em primeiro. Era um time que jogou muito tempo junto. Você pode perguntar para os torcedores mais antigos qual foi o time ideal da Caldense que ele te escala, do Gilberto ao Ganzepe. Foi uma equipe que marcou muito. Campeonato Mineiro era difícil enfrentar Atlético e Cruzeiro, só que quando eles caíam no Cristiano Osório, a batata assava. Mas quando chegávamos no Mineirão, tínhamos que fechar a casinha, porque era de cinco pra cima (risos).
Os torcedores compareciam em peso no Cristiano Osório?
Nos jogos grandes ficava muita gente de fora. Inclusive tinha gente que assistia ao jogo em cima do muro, principalmente do lado do Mercadão. Se o jogo era às 21h, às 19h já estava lotado. Nas partidas contra times de menor expressão recebíamos grandes públicos, mas o nosso alçapão não chegava a lotar.

Augusto no final dos anos 70.

 

Nessa época a Caldense teve muitos craques, mas poucos despontaram no cenário nacional. O que faltou para que mais jogadores da Veterana tivessem oportunidades em equipes maiores?

Naquele tempo não haviam olheiros nem empresários. Os jogadores só apareciam contra as equipes grandes. Quando vinha Cruzeiro e Atlético ou quando jogávamos amistosos contra os grandes de São Paulo, era o jogo da nossa vida. Vinha televisão transmitir, emissoras das capitais. Era a oportunidade de mostrarmos nosso futebol. Quando era jogo contra equipes do interior, era praticamente só as rádios locais que transmitiam, por isso nessas partidas era difícil alguém ter visibilidade. Eu, o Neto e o Aílton saímos porque tivemos a sorte de irmos bem em alguns desses jogos maiores. Outra coisa que nos ajudava muito era quando passava nossos lances no Fantástico, aquilo era uma vitrine. Inclusive passaram muitos gols meus lá. Era tudo mais difícil. Hoje, se você tiver um empresário, você não fica sem time, de jeito nenhum.
Você ficou na Veterana até o final dos anos 70?
Isso, fiquei na Veterana até 1978. Nessa época o América-RJ veio fazer uma pré-temporada em Poços. Eu fui bem no jogo contra eles e me levaram emprestado para disputar a Taça de Prata. Quando o contrato terminou, devido ao meu passe ser da Caldense, não houve um acordo com o América e voltei para Poços. Mas alguns meses depois, já em 79, o Santos se interessou por mim e adquiriu meu passe. Tive 15%, recebi luvas e fiquei lá até 1980. Do Santos fui para o América-MG, depois para a Desportiva de Vitória. Em seguida fiquei com o passe livre e voltei para a Caldense em 1984. Porém, foi uma época muito difícil para mim, pois a Veterana caiu para a segunda divisão. Fiquei muito chateado, pois tinha um nome na cidade, mas mesmo assim consegui ser um dos artilheiros do time. No ano seguinte, conseguimos retornar à primeira divisão. Entrei em acordo com a Caldense e me liberaram. Voltei para a minha cidade para disputar a segunda divisão Paulista pelo Esporte Clube União, joguei mais dois anos e depois parei.

Caldense no Ronaldão em 1984.
Em pé: Paulão, Esmael, Edinho, Eraldo, Ivanildo e Cláudio.
Agachados: Augusto, Ferreira, Fiao, Serginho Maracanã e Nogueira.
No cenário atual os jogadores de futebol recebem fortunas. Quanto ganhava um jogador de futebol na época?
Vou falar por mim. O maior salário que ganhei na Caldense foi 7 mil cruzeiros em 1979, esse era o teto do clube. Isso seria uns três ou quatro salários-mínimos hoje. Quando cheguei no Santos passei a receber 35 mil. Foi a época que consegui ganhar um pouquinho mais.
Augusto em 2017.

 

O que você passou a fazer após pendurar as chuteiras?

Quando eu estava jogando em Poços, fazia educação física em Muzambinho, junto com Walter e o Lelo. Quando me formei, comecei a dar aula no Estado, depois montei uma escolinha de futebol. Fiz uma parceria com a prefeitura e prestei serviços por 20 anos, mas agora encerrei. Atualmente estou mexendo com molecada, levando para fazer testes, fazendo o que gosto.
Você está entre os maiores artilheiros da história da Caldense. Quais foram seus gols inesquecíveis pela Veterana?
Tem dois gols que não esqueço. Caldense e Cruzeiro era um jogo marcante aqui em Poços. O Cruzeiro estava há 40 partidas invictas. Eles saíram de Bayern de Munique para jogar contra a Veterana no Cristiano Osório. Nosso alçapão estava lotado. Eles tinham Raúl, Dirceu Lopes, Palhinha, Jairzinho, Nelinho, Morais, Joaozinho, Piazza. E você acredita que naquele dia arrebentamos com eles? Ganhamos de 2 a 1. Estava 1 a 0, gol de Aílton Lira, de falta. O Jairzinho empatou. Aos 44 o Aílton Lira me fez um lançamento, o Raúl saiu e eu toquei por cima dele. Acho que todo mundo lembra desse jogo, porque o Cruzeiro vinha embalado. Inclusive aquele time foi campeão da libertadores algumas semanas depois. Aquele dia nosso time jogou muito. Teve um lance que dividi com o Jairzinho e falei para ele: “aqui a batata assa”. E ele respondeu: “quando vocês forem ao Mineirão vão ter que comer grama, porque lá vamos enfiar um monte” (risos). O outro jogo foi Caldense e Atlético-MG no Mineirão. Era Toninho Cerezo, Reinaldo, Éder, Telê Santana, um time de seleção brasileira. Fomos lá, ganhamos por 2 a 0 com dois gols meus. Fui o melhor em campo, ganhei bicicleta, ganhei televisão. Quando acabou o jogo, a imprensa veio tudo em cima da gente para fazer entrevista e o Sr. Juquita desenhou no quadro o esquema que ele tinha armado e falou “assim morreu o galo!” (risos).
O Juquita foi uma figura muito emblemática. Como era a convivência com ele? Você se recorda de alguma passagem curiosa?
Juquita e seu famoso pássaro preto

Ele era um pouco sistemático, uma pessoa difícil para lidar. Autoritário, rígido, mas tinha um coração muito bom. Ele tinha mania de colocar um pássaro preto no ombro e ir para o treino. Gostava de fazer algumas simpatias e macumbas. Algumas vezes até dava certo. Nesse jogo contra o Cruzeiro mesmo, ele pintou uma bola de preto e a jogou no campo, logo em seguida o Aílton fez um gol. Aí deram um chutão nela e a jogaram pra fora do campo. Dali um pouco alguém buscou a bola preta e o Juquita a jogou no campo de novo e eu marquei o segundo gol (risos). Mas às vezes não dava certo. Certa vez fomos jogar no Mineirão. Ele pegou seis bolinhas e deixou com o nosso massagista, o Rosa. Quando o jogo teve início, ele começou a jogar as bolinhas no campo. Cada vez que ele jogava uma bolinha o Cruzeiro ia lá e marcava um gol. “Joga a segunda, Rosa!”, Cruzeiro foi lá e fez 2 a 0. Jogou seis bolinhas e o Cruzeiro fez 6 a 0! Aí o Juquita gritou “Pelo amor de Deus Rosa, some com essas bolinhas porque está dando tudo errado!” (risos).

Figuraça! Os adversário também faziam essas simpatias contra a Caldense para revidar?
Ah não…Os caras ficavam com medo, pois o Juquita era feroz. Tinha coisa que dava certo, tinha coisa que não. Na época a gente não falava nada, respeitávamos muito essas manias dele. Mas um treinador que também me ajudou muito foi o Carlos Alberto Silva. Ele me encaminhou para o lugar certo e me aconselhou muito.
Augusto concede entrevista a uma rádio

 

Como era o esquema tático da Veterana e o entrosamento entre os jogadores na época?

A jogada nossa era eu dominar a bola e o Arnaldo passar. Ele cruzava, vinha Cafuringa, Jeremias. Do outro lada era João Preto ou Wilson Botão com Ganzepe. O nosso forte era pelas laterais e as faltas do Aílton Lira. Se saíssem cinco cobranças no jogo, uma você poderia ter certeza que era caixa. Além dos lançamentos dele, que treinávamos muito durante a semana.
Hoje os pontas tem que atacar e voltar para marcar. Qual era exatamente a sua função tática naquela época?
Eu era um ponta nato. O campo da Caldense era pequeno, isso nos obrigava a jogava bem aberto para termos condições de jogo. Hoje eu não sei se jogaria, o jogo está muito embolado no meio, não se vê os laterais passando, os pontas tem que recompor o meio. Eu jogava bem aberto, quase em cima da linha. Teve um jogo contra o Atlético onde o Cláudio Mineiro, que era lateral esquerdo do Galo, toda hora passava. Aí o Juquita gritava: “Augusto, volta para marcar!”. Passava um pouquinho ele gritava de novo: “Augusto, volta para marcar!”. Na terceira vez que ele gritou eu respondi: “Sr. Juquita, deixa eu jogar caramba. Como que eu vou marcar o lateral se a jogada forte nossa é o Lira me lançando?”. Dali um pouco ele gritou: “Augusto, volta para marcar se não eu vou te tirar!”. Aí eu não aguentei, virei pra ele e falei: “Ah seu Juquita, o senhor vai pra p… que o p….!”. Ele virou pro banco de reservas e falou: “Olha lá, o Augusto tá nervoso, tá xingando a torcida!” (risos).
Jeremias, Augusto e Cafuringa em 74.

 

Tem alguma outra história que valha a pena ser registrada?

O Cafuringa comprou um carro. Como eu tinha carta, resolvi ensiná-lo a dirigir. Ele tinha acabado de comprar, não fazia nem duas horas que estava com o carro. Eu fui dirigindo até um determinado lugar e depois passei o volante pra ele. Você acredita que ele saiu dirigindo e na primeira esquina atropelou uma carrocinha e matou um cavalo? Foi inacreditável! Veio polícia, veio tudo, foi um rolo danado. Depois tivemos que fazer uma rifa para comprar outra carrocinha para o rapaz (risos).
 
O que vocês costumavam fazer nas concentrações?
Geralmente ficávamos jogando baralho. Na maioria dos hotéis que íamos não havia mesa de bilhar ou sala de jogos, então nossa distração era jogar 21, caxeta. E outra, nosso time tinha horário para dormir, no máximo onze da noite já estávamos deitados. A turma era muito compromissada. Mas em outros clubes que passei, os caras varavam a noite jogando carteado (risos).
Jogadores da Veterana em momento descontraído

 

Naquela época já existia maria-chuteira?

Ah, tinha bastante (risos). Se eu for falar é perigoso dar desquite (risos). Mas tudo era fase. Nós aproveitávamos nossa folga. Nós não bebíamos em Poços, íamos pra Pocinhos do Rio Verde quase toda segunda-feira. Havia um lugar lá que gostávamos de frequentar e ficávamos sossegados. Eu era fraco pra beber, às vezes bebia no entusiasmo. No outro dia passava mal, chamava médico pra dar injeção, vomitava. Quando a fase está boa, você pode tomar o que quiser que ninguém fala nada. Agora se a fase está ruim, qualquer coisa vira motivo para falarem mal. Uma vez em 84 eu estava comendo pastel e tomando coca-cola em uma lanchonete. Um dirigente me viu e saiu falando: “O time tem que cair mesmo, o Augusto está lá tomando cerveja ao invés de treinar!”. Agora se o time está bem, as pessoas até te pagam uma cervejinha (risos).
O que a Caldense significa pra você?
Tudo, tudo. É a minha segunda casa. A gente tem muito amor por esse clube. Eu joguei por cinco equipes, mas foi na Caldense que tive as maiores oportunidades, onde me acolheram. Sou muito grato à Caldense, à cidade, aos torcedores. Todos lembram  de mim com muito carinho e até hoje sou reconhecido nas ruas. Eu tive uma depressão muito forte em 1988, fiquei seis meses ruim, perdi dezesseis quilos, cheguei no fundo do poço. Mas resolvi passar uma semana em Poços para rever os amigos e distrair. Me deram muita força e consegui me recuperar. Sempre que venho a Poços, me sinto bem. Se eu pudesse morar aqui, viria correndo.
Augusto, estamos chegando ao final da nossa entrevista. Gostaria de te parabenizar por tudo o que fez pela Caldense. Por cada gol, cada partida, cada alegria, cada vez que você fez alguém vibrar ali na arquibancada. Desejo vida longa a você e abro espaço para que faça suas considerações finais.
Obrigado por essa oportunidade. Acho que muitos que não me vêem há muitos anos estão me vendo agora, um pouco mais carequinha, e lembrando daquela época boa. Fico muito feliz de falar da Caldense, um clube que tenho uma admiração muito grande. Desejo muita saúde à todos e deixo aqui um grande abraço aos torcedores da Veterana!