Paulão

Paulo Roberto Duarte só não é o melhor goleiro da história da Caldense porque encontrou Gilberto Voador pela frente. “Paulão” jogou mais de dez anos pela Veterana, trabalhou por quase uma década na comissão técnica do clube e provavelmente é o jogador que mais vestiu a camisa do Verdão. Conheçam a carreira deste grande atleta que marcou época na equipe alviverde.

Normalmente quando uma criança começa a jogar bola, gosta de jogar na linha, marcar gols. Como começou seu interesse por jogar no gol?

Na verdade eu era jogador de linha. Jogava como ponta esquerda, mas na década de 70 em São Sebastião do Paraíso faltou goleiro e eu fui escalado para essa posição e desde então não me deixaram mais voltar pra linha. Sinal que eu não era tão bom assim né? (risos).

Como foi sua trajetória no futebol até se tornar um profissional?

Eu jogava futebol amador na região de São Sebastião e Passos, onde disputei um campeonato regional e fui campeão. A partir daí várias equipes profissionais começaram a me chamar. Estive no juvenil do Atlético e do Cruzeiro, mas por ser um garoto de cidade do interior tive dificuldades de me adaptar. Na época tínhamos o Carmelito como supervisor. Ele foi à minha cidade, conversou com meu pai e fizemos o famoso contrato de gaveta. Vim pra Poços em março de 76 e continuo aqui até hoje.

Gostaria que você fizesse uma retrospectiva de cada ano seu na Veterana e comentasse um pouco dos destaques de cada temporada.

Foram tantas coisas boas que aconteceram. Quando cheguei os goleiros eram Gilberto Voador e Walter Tambaú. Eu estava treinando com o juvenil e o Carlos Alberto Silva me chamou para ser o terceiro goleiro do time, fiquei muito emocionado e passei a participai do profissional em 77, mas logo fui emprestado para o Atlético de Três Corações, onde joguei a segunda divisão para pegar experiência, isso me fez crescer muito. Em 78 fui pra São João jogar no Palmeiras e em seguida retornei a Poços como titular, pois Gilberto e Walter tinham machucado. Depois eles retornaram e continuei como terceiro goleiro, participei inclusive do brasileiro de 79. Em 80 fui disputar paulistão pelo Velo de Rio Claro e retornei à Caldense em 81 como titular. Mantive a posição até os anos 90, exceto em 83 que fiquei afastado devido a uma cirurgia e em 88 que morei nos Estados Unidos.

Os torcedores da Veterana têm grandes lembranças da década de 70. Em contrapartida, a década de 80 não é muito comentada. Como foi o futebol do Verdão nos anos 80?

Foi um período difícil pra Caldense, o time não tinha muita arrecadação. A renda vinha de uma boate do clube que revertia recursos para o futebol. Em 83 caímos para a segunda divisão, mas houve uma reviravolta na federação e acabamos ficando na primeira. Em 84 tornamos a cair, não tínhamos recursos e nosso time era praticamente juvenil. Porém, já no ano seguinte, retornamos e voltamos a fazer grandes campanhas. Tivemos jogadores de destaque como Magú, Alexandrino, Bittencourt. Foi uma década boa em vista das condições, pois conseguíamos superar as adversidades. O estádio sempre atraía de 3 a 4 mil pessoas. A Caldense sempre foi família. Quando acabava um jogo, os torcedores, que eram nossos amigos, pagavam pizza pra gente. Não recebíamos bicho, não queríamos dinheiro. Não era dinheiro que tocava, era a paixão pelo clube.

Você foi contemporâneo do Gilberto Voador, que é considerado o melhor goleiro da história da Caldense. Como era disputar a posição com ele?

Não havia competição com o Gilberto, ele era um mito e eu me inspirava nele. Só de estar do lado dele já me sentia feliz. Até mesmo do Walter Tambaú, que era muito experiente, formado em educação física, nos ensinava muito. Eu os respeitava demais e aprendi muito com eles. A diferença minha para o Gilberto era que ele tinha 1,78m e jogava muito debaixo do gol, onde era uma barreira. Eu era mais alto com 1,83m e gostava de sair nas bolas áreas, cruzadas, sempre gostei de jogar adiantado para antecipar os lances. Na época não tínhamos treinador de goleiros, o Arnaldo (lateral-direito) que chutava as bolas na gente para treinarmos. O futebol não possuía a estrutura que se tem hoje.

Quem acompanha futebol sabe que o goleiro precisa ser corajoso para dividir a bola com os atacantes. Você já sofreu alguma contusão durante uma dividida?

Pra ser goleiro tem que ser maluco de nascença, não se pode ter medo de atacante. Quando você vai pra uma dividida, você só olha pra bola e não vê quem vem vindo, por isso às vezes acaba machucando. No meu primeiro jogo como profissional da Caldense, contra o Valério de Itabira, na primeira bola dividida, com menos de um minuto de jogo, tomei um chute na cabeça. Só acordei no dia seguinte no hospital, ainda uniformizado e cheio de pontos. Foi inacreditável!

Tem alguma defesa difícil que você realizou e se recorde?

Uma das grandes defesas que fiz foi no Ronaldão contra o Cruzeiro. Saiu uma falta na intermediária e o Nelinho pegou a bola pra bater. Eu mandei a barreira abrir, disse: “não quero barreira”, e o pessoal falou: “Você tá ficando louco”. O Nelinho fazia gol de falta em todo mundo, mas eu disse que “em mim ele não iria fazer”. Ele correu pra bola e não bateu pra gol, tocou de lado pro Renato “pé murcho”, que chutou. Na época eu usava luvas de couro, bem diferente dessas modernas de hoje e pulei pra espalmar e a bola. Ela grudou na minha mão, de tanta força que veio. Foi um lance muito marcante pra mim.

E frango, já levou algum?

Jogávamos contra Uberlândia e saiu uma falta no meio do campo, logo no início do jogo. O Zecão, que era o zagueiro deles e nem sabia nem chutar uma bola direito, se posicionou para bater. Ele partiu pra bola e deu um chutão. A bola veio em minha direção. O nosso zagueiro central, Amaral, estava logo à minha frente e eu gritei para ele: “tira!”, com a intenção de que ele cabeceasse a bola, mas ele achou que era pra tirar o corpo e saiu da jogada. A bola quicou na minha frente, me encobriu e entrou. Até hoje a minha esposa me cobra por esse lance. Virou motivo de piada entre os amigos, o pessoal brinca “e o gol do Zecão?” (risos).

Como foi sua carreira pós Caldense?

Quando saí da Veterana joguei pelo Rio Branco de Andradas, Atlético de Alagoinhas-BA, Flamengo de Varginha e depois Esportiva de Passos, onde o Jânio Joaquim trabalhava. Isso tudo em 91 e 92. Em 93 o Jânio foi para o Uberlândia e me levou pra lá. Em seguida fui para a URT e achei que estava na hora de parar. Na mesma época coincidiu de o Aílton Lira assumir a Caldense como treinador e ele me convidou para ser o treinador de goleiros da equipe. Foi uma alegria muito grande para mim. Nos quatro anos que exerci o cargo, meus goleiros foram os melhores do interior. Durante esse período ainda cheguei a ser treinador interino por algumas rodadas quando o João Francisco saiu. Continuei na comissão técnica Caldense até 2000, mas depois aconteceram algumas coisas e abandonei o futebol.

Você vestiu a camisa da Caldense por muitos anos. Tem alguma história que aconteceu nos bastidores de alguma partida que mereça ser contada?

A gente ser garoto é um problema. Eu estava começando no profissional e havíamos jogado no Rio Grande do Sul contra o São Paulo-RS. Durante a viagem de volta, fui usar o banheiro do avião. Enquanto isso, o pessoal juntou todos os talheres que tinham usado no almoço e colocaram dentro da minha bolsa. Passou um pouquinho a aeromoça veio recolher as coisas e deu falta dos talheres. Não deu outra, o comandante do voo chegou e falou: “pessoal, sumiu alguns talheres a vamos ter que revistar a bagagem de todos”. Todo mundo começou a abrir a mochila e ninguém encontrava nada. Quando chegou a minha vez, fui todo tranquilo para abrir a mala e de repente tinha colher, garfo, faca, tudo lá dentro, tinha até ferro elétrico. Foi uma verdadeira bagunça. Eu fiquei morrendo de vergonha e o pessoal ficou rindo da minha cara (risos). Teve uma vez também que o Miro Ramos entrou com um rádio no avião e queria ouvir música na viagem, além de não pegar nenhuma estação ainda não podia ficar com o aparelho ligado, foi uma tiração de sarro danada (risos).